Bem, eu nunca quis dizer que devíamos abandonar os livros. Fahrenheit 451, do Ray Bradbury, deixou-me arrepiada. É que, ainda que não se note, eu gosto muito de ler.

E, naturalmente, concordo contigo: o melhor será seguirmos o caminho do meio.
Quando eu referi o post
Sugestões de Leitura, não pretendia de modo nenhum condenar aquele post, ou qualquer coisa do género. Queria dizer que também esperava que se falasse dos tais ensinamentos directos, via Natureza.
Contudo, Alexandre, o teu comentário final mostrou-me que o que eu procuro (que eu própria não sei exactamente o que é, mas sei o que não é!), não se encontra aqui. Bem, mas mesmo com prejuízo pessoal e profundo pesar, não me resta outra alternativa senão dizer o que penso em relação ao final do teu comentário:
Respondendo ao teu desafio, aqui fica a minha sugestão de um dos mais belos e vetustos carvalhos lusitanos, o "Carvalho de Calvos":
Este belo "velhote" já tem mais de cinco séculos de vida, tendo sido recentemente alvo de uma intervenção "cirúrgica", pois tinha um ramo doente, que teve de ser amputado. Felizmente, para além de ter resistido à mesma, tornou-se ainda mais forte e é um muito respeitável ser, pelo seu porte e dignidade.Eu podia muito bem ignorar isto, se tivesses escolhido outra árvore qualquer. Entende que não o posso fazer em relação ao Carvalho de Calvos. Lamentavelmente, não posso!
Já escrevi a frase de cima há algum tempo. Não sei como dizer o que quero dizer. Não sei como falar de experiências e sensações onde, acima de tudo, predomina a estranheza. Mas, possivelmente porque sou uma pessoa ingénua e ignorante, pensei que aqui, num fórum dedicado ao druidismo, também se falaria de coisas que não são habituais noutros lugares, como experiências ligadas a pedras e a árvores. Não teria que ser em termos pessoais, poderia não ser particularizado, contudo, isso teria que ser necessariamente algo bem diferente do que tu escreveste em cima. Acredita, não entendo. E tenho, agora, absoluta percepção que não sei o que é o druidismo. Peço que não te ofendas. Eu estou a colocar uma dúvida legítima. E, de resto, não precisas de te dar ao trabalho de entrar em definições por minha causa, é pouco provável que eu volte cá e que as leia...
O que vou escrever a seguir não o escrevo para ti ou para a tua floresta, escrevo-o porque não posso deixar de o fazer, pelo profundo respeito, gratidão e amor que tenho pelo Espírito do Carvalho de Calvos! O que vem a seguir é apenas a última vez em que este Espírito da Natureza me ajudou.
Na véspera do Lughnasadh, o meu marido deixou-me no hospital e foi procurar um lugar para estacionar o carro. Até ali aquilo nunca tinha acontecido, entrávamos sempre juntos. Nesse dia cheguei sozinha, mas a verdade é que nem me deixaram entrar na sala da neonatologia, uma enfermeira veio ter comigo e disse-me que o meu filho tinha tido novamente uma recaída, estava com outra infecção generalizada. Entrei e vi o meu filho com o soro nas veias da cabeça - já tinha sido tantas vezes picado que não havia mais veias que se pudessem usar. Não consegui aguentar mais! Poucos minutos depois estava já a sair do hospital, cruzei-me com o meu marido que estava a entrar... sabia bem que fugia, mas não sabia como não fugir.
Andei a vaguear pelas ruas, completamente perdida e acabei por entrar na Sé. Sentei-me num canto e chorei. O meu choro rapidamente se tornou incontrolável. Entretanto, alguém me tocou no ombro, uma, duas vezes... ainda a soluçar olhei para cima, vi uma mulher que me perguntou se eu sabia a que horas era a próxima missa. Eu fiquei tão estupefacta que ela repetiu a pergunta. Ainda a chorar, disse que não e ela afastou-se. Sem sequer me agradecer ou pedir desculpa pelo incómodo... fiquei arrepiada e apressei-me a sair dali. Continuei sempre a chorar, enquanto andava pelas ruas, sem destino.
Mais tarde, fui até ao Carvalho de Calvos. Onde mais poderia ir? Cheguei e o parque estava completamente vazio. Descalcei-me e entrei de imediato na fenda do carvalho, sentei-me e encostei-me lá dentro, bem no fundo, completamente dentro do velho carvalho. Dois ou três minutos depois, apareceu uma mulher velha que me perguntou o que eu fazia ali, disse-lhe que precisava estar ali um bocadinho. E ela disse-me que eu não podia ficar dentro do carvalho, mas foi-se embora e eu pensei que me estava a conceder aqueles minutos... logo de seguida, apareceram outras duas mulheres, uma delas era uma adolescente, a outra mais velha, foi essa que falou e exigiu que eu saísse de dentro do carvalho. Horrorizada, reconheci a Deusa na sua face tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Comecei novamente a chorar, pedi-lhe que me deixasse estar lá só um bocadinho, disse que já não aguentava mais... mas a mulher foi irredutível e continuou a exigir a minha saída. Saí, porque a Deusa assim o queria. A mulher ainda me perguntou se eu queria ir até ao café conversar... claro que não quis. Foram para o tal café lá no parque e eu afastei-me do carvalho... Nem sei dizer o que senti. Era como se tivesse deixado de haver chão debaixo de mim e eu estivesse permanentemente em queda livre.
Sentei-me no chão, fechei os olhos e recusei-me a pensar fosse o que fosse. Só queira ficar assim um bocadinho, antes de me ir embora... Mas fui ficando, apareceram algumas pessoas, que rapidamente se foram embora. E, por maior que fosse o meu desespero, a verdade é que eu já não tinha qualquer contacto com a natureza há muito tempo, tanto tempo que aquele bocado no parque, apesar de todas as circunstâncias, era algo que parecia entrar dentro de mim, ligando-me à Terra e não me deixando sair dali. Ainda hesitante, voltei para junto do carvalho... e fiquei lá imenso tempo, deitada no chão e de olhos fechados, esforçando-me por não pensar em nada. Até que ouvi novamente a voz da mulher velha, que me disse que estavam a fechar o bar e que se iam embora. Entendi o que estava implícito: se eu ainda quisesse voltar para dentro do carvalho, já o podia fazer. Fiquei admiradíssima. Agradeci e ela foi-se embora, não sem antes me desejar que tudo me corresse bem.
Algum tempo depois, entrei de novo no carvalho. Fiz o meu ritual. Um longo, longo ritual. O meu primeiro ritual desde que o meu filho tinha nascido. Ninguém me perturbou. Quando decidi que era altura de sair do carvalho, senti imensos pingos, não sei bem de quê, a caírem em cima de mim ... aceitei-os como um bom presságio. Nesse momento, acreditei que tudo iria correr bem.
No dia seguinte, no hospital, disseram-nos que afinal já estava tudo bem com o meu filho. Ainda continuou mais algum tempo na neonatologia, mas sempre sem perigo, era ainda muito pequeno e só podia ser alimentado pela sonda. Até que chegou o tempo em que teve finalmente alta, veio para casa e tudo corre bem, com a graça dos Deuses. E eu continuo profundamente agradecida ao Espírito do Carvalho de Calvos.